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sexta-feira, 22 de novembro de 2013
AMORES INCONVENCIONAIS
Quando, certa vez, estava a procura de algo para assistir na tv, deparei-me com um programa documental onde dois homens, aparentemente de idade já avançada, debatiam de forma bastante elegante. Os dois senhores conversavam num constante sussurro, quase inaudível. Mas ao aumentar o volume, percebi que era de mulheres que falavam. Não me surpreendi, confesso. Não apenas por saber que existe sexualidade entre os idosos, mas também, por saber que o tema mulher é sempre uma pauta de relevante interesse entre os homens, não importa a idade.
Os senhores falavam de um caso de amor no qual um jovem namorou por meses com uma moça muito atraente. No entanto, todo o investimento afetivo havia declinado, pouco tempo depois. Não houve consistência da parte dele. E logo, tudo não passou de um relacionamento superficial.
- “ah, eu lembro”, diz o outro.
- “Ele passava todo o tempo em conversa com o sogro”. Era um cavalheiro, boa índole, a companhia perfeita. Tudo o que fosse necessário para o encaminhamento matrimonial.
Mas o tempo passou e a conversa continuou no mesmo tom de voz enfadonho. No desenvolver da conversa, já falavam do desfecho do caso comentado. O rapaz que não ganhou o coração da moça teve que se contentar com outro romance e a cortejada em questão encontrou um outro namorado com quem foi mais feliz e até casou. Namorado este que não tinha nada de cavalheirismo, ao contrario, comportava-se sempre de forma muito indelicada.
A conversa apontava para um descontentamento emocional. Parecia que ambos sentiam-se afetados pela história que contavam. Como se cada um sentisse certa parcela de pena daquele relacionamento inexistente: a história de um desamor.
Após comentarem a eventualidade, um dos senhores falou do desfecho do caso como sendo o mais esperado. Primeiro porque, naturalmente, nenhuma mulher iria gostar de um homem que conversava mais com o sogro do que com ela mesma. E segundo, porque o segundo namorado não conquistou o coração da família, em especial o do pai da moça. Ao contrário, era um transgressor sem escrúpulos. “as mulheres gostam deste tipo de homem” diziam. O primeiro a demonstrar rebeldia ganharia seu namoro.
Apesar de imaginar-mos que isto tenha se passado à décadas, muita coisa não mudou no que se concerne ao tema relacionamento. Constatamos aí duas histórias: uma de desencanto e outra que deu certo. A que não deu certo, buscou-se um padrão, uma rotina, uma adequação. Na outra, houve um apaixonamento pelo proibido, a moça desejou um estereótipo rebelde. Isto me faz lembrar de quando falam da “metade da laranja”, “alma gêmea”, enfim, de um amor hollywoodiano, onde há destaque para os pares perfeitos.
A literatura psicológica, amparada pela psicanálise, evidencia que a falta como condição desejante é o que move o sujeito em sua busca pela felicidade. Dessa forma, entendemos como as mais diversas paixões, quase sempre necessitam de disparidades para se afirmarem enquanto paixões. Assim, torna-se compreensível o entendimento destas paixões ditas impossíveis que dão certo. Não por acaso, busca-se sempre o que está nos faltando. Esta é a linha que segue o desejo. Estamos sempre buscando preencher o nosso vazio. Em resumo, não podemos desejar aquilo que já temos. Por isso temos sempre esta atração pelo desconhecido, por aquilo que não podemos explicar com palavras, mas que está sempre a nos causar incomodo ou satisfação, embora não plena, mas suficientemente intensa.
Assim, explica-se as mais dramáticas histórias de amores e desamores de todos os tempos. É preciso certa dose de angustia, disparidade e desejo avivado. Mas nem sempre convencional!
Renato Antonio de Paiva
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