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sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Resenha do filme a arte do pensamento negativo
A arte do pensamento negativo (2006), filme norueguês, não está apenas ambientalizado de forma negativada e não convencional ao mercado hollyoodyano. Trata-se da trama da vida árdua de varias pessoas com problemas físicos e mentais. O desenrolar do filme concentra-se na vida de Geirr, um homem de meia idade que tinha uma vida normal com sua esposa até sofrer um acidente (não explicado no filme) e ter que ficar paraplégico, tornar-se dependente de uma cadeira de rodas, mergulhar de cabeça numa depressão e potencializar tudo isso com uso de álcool e outras drogas. Tori, a esposa de Geirr, o convence a participar de um grupo de terapia cuja proposta é “curar” as pessoas que já participam, através da utilização de pensamentos positivos. O grupo é então convidado por Tori a ir até a casa de Geirr, isso faz com que haja inicialmente o primeiro conflito.
O primeiro contato do grupo com Geirr é o mais inusitado possível. Há uma forte resistência por parte dele que mostra-se muito irritado com o grupo. No entanto, ao decorrer da trama, acontece uma aproximação mínima que aos poucos torna-se mais forte.
A principio percebe-se que todos estão imersos numa forma de vida muito superficial no que diz respeito ao pensamento positivo. Pois, há primeiramente uma falsa aceitação de suas vidas. No entanto, esse movimento vai aos poucos ganhando um outro formato. Pois, ao longo da trama vai-se percebendo que tudo não passava de uma falsa ilusão, maquiagem, cobertura para mascarar seus reais sentimentos no que diz respeito a suas vidas. Após acontecer naturalmente entre eles um movimento de expulsão da terapeuta do grupo, Geirr toma o comando e os incita a vivenciarem uma nova forma de vida. Os integrantes do grupo começam a viver da forma mais “livre” possível, pois sentem que não mascarando suas realidades, aceitando-as, estão cada vez mais sentido-se fortes. Isto não acontece de forma fácil, pois inicialmente eles ficam muito resistentes a proposta de Geirr.
Quanto a esta proposta do personagem, pode-se fazer um paralelo à luz do processo histórico sob o qual se solidificou a nossa sociedade. Houve, por exemplo, um certo encobrimento de alguns “problemas”, a saber, pessoas com deficiência física, transtorno mental, homossexuais entre outros. Assim, durante muito tempo as pessoas acostumaram-se a não perceberem suas reais situações, ou até considerando-se “falhas no sistema”, um incomodo para as pessoas ditas “normais”. O que percebe-se é que o personagem Geirr, em um movimento de retificação, os fazem perceberem-se nos seus respectivos mundos. No entanto, mundos entrelaçados numa realidade ambivalente onde a realidade triste sempre está sendo encoberta pelo desejo de ser feliz. Ainda, contamos com a filosofia de Nietzsche a respeito das falsas impressões e compreensões de mundo impostas por classes dominantes durante muito tempo na sociedade ocidental. Tal filosofia afirma como um de seus principais conceitos que o homem está só, sem deus, sem ninguém para protegê-lo e que a partir deste momento, da descoberta de sua solidão, é que o homem pode se fortalecer enquanto humano. Assim, tal fortalecimento só seria possível através do desvinculamento à falsas ilusões e da aceitação da própria vida. Ainda, recordamos a filosofia de Jean Paul Sartre que também possibilita uma compreensão do sujeito a partir de sua solidão. “O homem está condenado a ser livre” afirmou Sartre. Para ele, liberdade implica em responsabilidade. A partir do momento em que percebemos isso, nos tornamos verdadeiramente responsáveis por nossas vidas. Exatamente isto o que podemos observar no filme A arte do pensamento negativo.
Ao caminharmos para o final do filme, parece que todas as limitações foram realmente superadas pelas personagens, não pelo fato de ter que aceitar a realidade por uma fantasia ramificada de pensamentos positivos, mas por ter tornado a triste, porém superável, realidade em algo aceitável. Trata-se de um roteiro, que apesar da apresentação de dramas vivenciados por seus personagens, mostra-se por vezes cômico, com certa pitada de humor negro e que inspira movimento, criação, e invenção para uma vida com responsabilidade.
Renato Antonio de Paiva 03/05/2013
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