sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Ordinária insônia

Uma grande questão a ser posta nos tempos de redes e dispositivos sociais é a insônia. Ela te faz refletir, elaborar, modificar, dialogar consigo mesmo, e quase sempre sobre problemas ou questões mal resolvidas. Mas o maior problema da insônia, mais do que o apego as redes sociais, é a programação da TV aberta brasileira, no turno da madrugada. Nunca tem um programa disponível sobre esportes, cultura, ou até mesmo uma boa musica. Por outro lado o que chama mais atenção é o domínio quase que integral das igrejas ditas evangélicas, neo pentecostais, protestantes, ou como queiram chamar. Há que se comentar também, pra não passar em branco, uns dois ou três canais católicos e por vezes um programa espírita. O que me chamou atenção não foram os programas, mas a forma como as igrejas estão abordando os seus “fieis”. É justamente uma boa hora, estratégica. Poderia ser ao meio dia, concorrendo com o jogo aberto, balanço geral, ou quem sabe às treze horas para assim recorrer à uma população em pleno almoço ou intervalo do trabalho. Mas apenas na madrugada a grade de programação evangélica se multiplica. Sabemos que pessoas que ficam acordadas, com insônia, na madrugada tem mais possibilidades de estarem, ou em situação de desemprego ou em algum estagio de melancolia ou ainda com a possibilidade de algum estagio depressivo. Evidentemente pode ser alguém que não esteja comprometido emocionalmente, como alguns internautas que não trabalham, ou apenas sentem prazer em explorar a madrugada. Mas é muito suspeito uma pessoa que não tenha nenhum problema desenvolva um quadro de insônia. Pode ser que algumas pessoas pensem que estou sendo contra as igrejas e suas filosofias, mas apesar de não aceitar os ideais religiosos, o que me incomodou foi apenas a programação da televisão aberta no horário da madrugada. Poderiam pensar, quando fossem montar os horários dos programas, numa outra categoria de pessoas, que não são depressivos, (assim como eu) e que querem algo mais animado, mais vital. E mais ainda: se querem realmente atingir os depressivos, que seja com animação gente. Já não basta a vida cinzenta de uma pessoa com depressão ou desempregada. Pelo menos alguns dos programas dos quais assisti por algum pouco tempo só me deixaram com certo embotamento psicológico. Decidi então não ver mais, mudar de canal, e o que vi nos outros? A mesma coisa. Solução? Correr pro facebook, twitter, e-mail, skype, msn. É assim que a maioria das pessoas fazem. O fato é que acabam trocando seis por meia dúzia, pois nem sempre o conteúdo dessas mídias agrada ou expressa alguma qualidade. No entanto isto pode até ser uma solução criativa. Pode até ser um recado dos internautas as grandes marcas da TV aberta. Um clamor por uma boa programação, independentemente do horário? Pode ser que seja. Caso contrário, iremos presenciar a falência ininterrupta de grandes marcas televisivas. Afinal, não é de hoje que se cogita a fim da televisão ante o nascimento e crescimento da era da informática. Será? Para concluir devo dizer que os cidadãos brasileiros sempre se reinventarão, modificarão, e até mesmo ampliarão suas possibilidades de informação. E depois de tentar expor inquietações, tomando como base a minha própria insônia, talvez o maior recado seja esse, enquanto o sono não vem.

AMORES INCONVENCIONAIS

Quando, certa vez, estava a procura de algo para assistir na tv, deparei-me com um programa documental onde dois homens, aparentemente de idade já avançada, debatiam de forma bastante elegante. Os dois senhores conversavam num constante sussurro, quase inaudível. Mas ao aumentar o volume, percebi que era de mulheres que falavam. Não me surpreendi, confesso. Não apenas por saber que existe sexualidade entre os idosos, mas também, por saber que o tema mulher é sempre uma pauta de relevante interesse entre os homens, não importa a idade. Os senhores falavam de um caso de amor no qual um jovem namorou por meses com uma moça muito atraente. No entanto, todo o investimento afetivo havia declinado, pouco tempo depois. Não houve consistência da parte dele. E logo, tudo não passou de um relacionamento superficial. - “ah, eu lembro”, diz o outro. - “Ele passava todo o tempo em conversa com o sogro”. Era um cavalheiro, boa índole, a companhia perfeita. Tudo o que fosse necessário para o encaminhamento matrimonial. Mas o tempo passou e a conversa continuou no mesmo tom de voz enfadonho. No desenvolver da conversa, já falavam do desfecho do caso comentado. O rapaz que não ganhou o coração da moça teve que se contentar com outro romance e a cortejada em questão encontrou um outro namorado com quem foi mais feliz e até casou. Namorado este que não tinha nada de cavalheirismo, ao contrario, comportava-se sempre de forma muito indelicada. A conversa apontava para um descontentamento emocional. Parecia que ambos sentiam-se afetados pela história que contavam. Como se cada um sentisse certa parcela de pena daquele relacionamento inexistente: a história de um desamor. Após comentarem a eventualidade, um dos senhores falou do desfecho do caso como sendo o mais esperado. Primeiro porque, naturalmente, nenhuma mulher iria gostar de um homem que conversava mais com o sogro do que com ela mesma. E segundo, porque o segundo namorado não conquistou o coração da família, em especial o do pai da moça. Ao contrário, era um transgressor sem escrúpulos. “as mulheres gostam deste tipo de homem” diziam. O primeiro a demonstrar rebeldia ganharia seu namoro. Apesar de imaginar-mos que isto tenha se passado à décadas, muita coisa não mudou no que se concerne ao tema relacionamento. Constatamos aí duas histórias: uma de desencanto e outra que deu certo. A que não deu certo, buscou-se um padrão, uma rotina, uma adequação. Na outra, houve um apaixonamento pelo proibido, a moça desejou um estereótipo rebelde. Isto me faz lembrar de quando falam da “metade da laranja”, “alma gêmea”, enfim, de um amor hollywoodiano, onde há destaque para os pares perfeitos. A literatura psicológica, amparada pela psicanálise, evidencia que a falta como condição desejante é o que move o sujeito em sua busca pela felicidade. Dessa forma, entendemos como as mais diversas paixões, quase sempre necessitam de disparidades para se afirmarem enquanto paixões. Assim, torna-se compreensível o entendimento destas paixões ditas impossíveis que dão certo. Não por acaso, busca-se sempre o que está nos faltando. Esta é a linha que segue o desejo. Estamos sempre buscando preencher o nosso vazio. Em resumo, não podemos desejar aquilo que já temos. Por isso temos sempre esta atração pelo desconhecido, por aquilo que não podemos explicar com palavras, mas que está sempre a nos causar incomodo ou satisfação, embora não plena, mas suficientemente intensa. Assim, explica-se as mais dramáticas histórias de amores e desamores de todos os tempos. É preciso certa dose de angustia, disparidade e desejo avivado. Mas nem sempre convencional! Renato Antonio de Paiva

O INTEMPESTIVO MUNDO DIGITAL

Não é de hoje que observamos cada vez mais, as mais variadas pessoas, que fazem uso de certos aparelhos virtualizados. Que seja o telefone celular, computador, Ipad, Ipod, vídeos-games, entre tantos outros. Isto sem falar da imensa “cápsula protetiva” sob a qual as crianças estão destinadas a vivenciarem no momento em que caminham para a escolha de algum esporte. Chuteiras ou tênis caríssimos, camisas de griff, camisas e shorts térmicos, caneleiras reforçadas, tornozeleiras, alguns ainda usam protetores labiais, capacetes, cotoveleiras, não esquecendo os bloqueadores solares e a aparelhagem médica disponível em qualquer campinho ou quadra esportiva. Cada vez mais cedo, as crianças estão virando reféns de uma era: a era tecnológica. Lembro-me de uma infância que não precisava-se de muito para poder ser feliz. Bastava por vezes algumas bolas de gude ou um simples carrinho de lata, para não falar de um campinho de terra batida. Neste ultimo não contávamos com luxuosas camisas dos mais diversos clubes ou seleções, mas apenas, fazia-se necessário que uma das duas equipes tirasse as camisas. Não era preciso ter preocupação com chuteiras ou meias, ao contrario, ouvia-se e sentia-se o deslizar dos pés descalços em meio aos berros proferidos pelas equipes. O que observa-se é que um fator protetivo ao excesso, pode sim, contribuir para um possível déficit na capacidade individual de desenvolvimento pessoal. Ora, a medicina afirma que, quanto maior a exposição do individuo ao ambiente, mais será a capacidade de aquisição de anticorpos benéficos à saúde. Deve ser por isso que cada vez mais os leitos hospitalares estão recebendo inúmeros pacientes, das mais variadas patologias. E cada vez mais, estão inventando os mais diversos tipos patológicos. Quanto a isso, eu convoco todos a fazerem uma breve reflexão/rebelião. Vamos todos nos opor a qualquer tipo de midiatização, mas que não seja uma rebelião por completo, suficientemente adequada. Devemos enxergar que o essencial não é ter a melhor aparelhagem, mas a que nos proporcione um maior contato sensitivo com a realidade. Não precisamos ter o melhor computador, o melhor tablet, o celular de ultima geração. O que realmente precisamos é observar. Observar a natureza, as pessoas, as relações, os lugares e que esta observação seja eminentemente participante. Devemos estar cada vez mais participativos, apenas pela vontade de mobilização pessoal. As crianças de alguns anos atrás eram felizes por menos, eis a constatação. O que realmente importava eram as brincadeiras coletivas, preferencialmente aquelas que envolvessem o corpo. Pouco era necessário para brotar um longo sorriso. Ao contrario do que vemos hoje, quanto maior o acumulo maior o vazio que toma conta das pessoas. Neste caso, devemos abolir boa parte do tempo virtual em prol de uma revolução sensitiva. Este tempo virtual, o que fazer? Vamos então investi-lo. Fazendo um investimento em um maior tempo real: vivendo e aproveitando mais. Renato Antonio de Paiva

Resenha do filme a arte do pensamento negativo

A arte do pensamento negativo (2006), filme norueguês, não está apenas ambientalizado de forma negativada e não convencional ao mercado hollyoodyano. Trata-se da trama da vida árdua de varias pessoas com problemas físicos e mentais. O desenrolar do filme concentra-se na vida de Geirr, um homem de meia idade que tinha uma vida normal com sua esposa até sofrer um acidente (não explicado no filme) e ter que ficar paraplégico, tornar-se dependente de uma cadeira de rodas, mergulhar de cabeça numa depressão e potencializar tudo isso com uso de álcool e outras drogas. Tori, a esposa de Geirr, o convence a participar de um grupo de terapia cuja proposta é “curar” as pessoas que já participam, através da utilização de pensamentos positivos. O grupo é então convidado por Tori a ir até a casa de Geirr, isso faz com que haja inicialmente o primeiro conflito. O primeiro contato do grupo com Geirr é o mais inusitado possível. Há uma forte resistência por parte dele que mostra-se muito irritado com o grupo. No entanto, ao decorrer da trama, acontece uma aproximação mínima que aos poucos torna-se mais forte. A principio percebe-se que todos estão imersos numa forma de vida muito superficial no que diz respeito ao pensamento positivo. Pois, há primeiramente uma falsa aceitação de suas vidas. No entanto, esse movimento vai aos poucos ganhando um outro formato. Pois, ao longo da trama vai-se percebendo que tudo não passava de uma falsa ilusão, maquiagem, cobertura para mascarar seus reais sentimentos no que diz respeito a suas vidas. Após acontecer naturalmente entre eles um movimento de expulsão da terapeuta do grupo, Geirr toma o comando e os incita a vivenciarem uma nova forma de vida. Os integrantes do grupo começam a viver da forma mais “livre” possível, pois sentem que não mascarando suas realidades, aceitando-as, estão cada vez mais sentido-se fortes. Isto não acontece de forma fácil, pois inicialmente eles ficam muito resistentes a proposta de Geirr. Quanto a esta proposta do personagem, pode-se fazer um paralelo à luz do processo histórico sob o qual se solidificou a nossa sociedade. Houve, por exemplo, um certo encobrimento de alguns “problemas”, a saber, pessoas com deficiência física, transtorno mental, homossexuais entre outros. Assim, durante muito tempo as pessoas acostumaram-se a não perceberem suas reais situações, ou até considerando-se “falhas no sistema”, um incomodo para as pessoas ditas “normais”. O que percebe-se é que o personagem Geirr, em um movimento de retificação, os fazem perceberem-se nos seus respectivos mundos. No entanto, mundos entrelaçados numa realidade ambivalente onde a realidade triste sempre está sendo encoberta pelo desejo de ser feliz. Ainda, contamos com a filosofia de Nietzsche a respeito das falsas impressões e compreensões de mundo impostas por classes dominantes durante muito tempo na sociedade ocidental. Tal filosofia afirma como um de seus principais conceitos que o homem está só, sem deus, sem ninguém para protegê-lo e que a partir deste momento, da descoberta de sua solidão, é que o homem pode se fortalecer enquanto humano. Assim, tal fortalecimento só seria possível através do desvinculamento à falsas ilusões e da aceitação da própria vida. Ainda, recordamos a filosofia de Jean Paul Sartre que também possibilita uma compreensão do sujeito a partir de sua solidão. “O homem está condenado a ser livre” afirmou Sartre. Para ele, liberdade implica em responsabilidade. A partir do momento em que percebemos isso, nos tornamos verdadeiramente responsáveis por nossas vidas. Exatamente isto o que podemos observar no filme A arte do pensamento negativo. Ao caminharmos para o final do filme, parece que todas as limitações foram realmente superadas pelas personagens, não pelo fato de ter que aceitar a realidade por uma fantasia ramificada de pensamentos positivos, mas por ter tornado a triste, porém superável, realidade em algo aceitável. Trata-se de um roteiro, que apesar da apresentação de dramas vivenciados por seus personagens, mostra-se por vezes cômico, com certa pitada de humor negro e que inspira movimento, criação, e invenção para uma vida com responsabilidade. Renato Antonio de Paiva 03/05/2013